Levanto-me. Sinto um leve tremor ao sair das cobertas e adentrar na friagem da noite que ainda perdura em meu quarto. Visto uma calça jeans e vou até a geladeira. Minhas opções são: brócolis já passado e cru, reminescente da última tentativa de comer como um ser humano, uma margarina fora do prazo de validade ou suco totalmente artificial de morango. Encho um copo e ligo o computador.

E agora? Bem, preciso fazer compras. A última vez que tive que ir ao supermercado, decidi variar e experimentar um lugar novo, um que eu ouvi uma colega de trabalho comentar, e o que era apenas uma atividade mensal e rotineira acabou se tornando um evento digno de nota que talvez possa até mesmo render a alguém algumas conclusões interessantes.

Localizado em outro bairro, mais classudo por assim dizer, sua configuração me chocou de maneira tão grande que eu não soube nem como me comportar lá dentro. Ao invés de corredores amplos e longos, eram fileiras estreitas de mercadorias amontoadas numa organização peculiar que escapou a meus horizontes mais modestos e desacostumados. Os produtos e preços eram sinalizados de forma discreta e belíssimamente estilizados. Não era luxuoso, havia sim as marcas e itens que pessoas comuns, como eu, compram.

Não sou uma pessoa desajustada, sou razoavelmente adaptável e não passo (tanta) vergonha em ambientes estranhos ao meu cotidiano. Porém, tenho clara consciência de que está na hora de reencher meu copo e “matar” a caixinha de suco… Perdão, consciência de que eu me comportei como uma completa alienígena, olhando para todos os lados, absorvendo tudo, experimentando todos os patezinhos, vinhos e queijinhos que eu tinha direito, as vezes, mais de uma vez. Após ter colidido meu carrinho com praticamente todas as pessoas que estavam na minha frente e atrás de mim naquelas fileiras estreitas, vencida pela claustrofobia daquele lugar, desisti e voltei para casa com o que eu havia conseguido salvar da minha dignidade. Nem sei o que eu faria se o meu cartão fosse recusado… Já posso até ver: “Mulher comete Harakiri após surto psicótico em mercearia”.

Resumo da ópera: fiquei e ligeiramente perdida com o aspecto “pitoresco” do local e saí de lá com uma compra composta metade das coisas que eu realmente precisava (porque o resto dela eu não encontrei) e a outra metade de presentinhos inúteis e caríssimos a mim mesma. Insuperável mesmo foi a ironia de ver queijo roquefor, chocolate suíço e caviar francês apenas a algumas gôndolas do macarrão instantâneo, do fubá pré-cozido e dos pacotinhos de pó para maria-mole.

Após algumas horas, decidi fazer o almoço e, confrontada com a realidade de ter macadâmias glaceadas, mas nenhuma grama de arroz, decaí de meu estado de graça para uma tristeza do tamanho do rombo no meu orçamento. Saí para o supermercado como alguém que cometeu uma infidelidade e volta para seu antigo amor, cheio de culpa e totalmente desmoralizado. Comprei somente o essencial, mesmo assim gastando o resto do meu salário e decidi tomar juízo, de vez!

Refletindo, depois de um almoço paradoxal de arroz vagabundo e empapado com anchovas italianas, vejo os rostos das pessoas que trabalham naquela “mercearia” e constato: elas não estavam sorrindo para serem cordiais, mas riam de mim, cheios de escarninho, do meu deslumbramento de iniciante. São sábios, conhecem melhor do que eu como o mundo, as pessoas e as coisas funcionam, logo, estão imunes a muitos dos constrangimentos e armadilhas diárias. Tenho que sair, ou logo estarei comendo o brócolis com margarina. Só espero não encontrar com nenhum dos funcionários da mercearia no supermercado.

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