É tudo culpa do feriado. Três dias sem trabalho foram suficientes para que a crise se instaurasse. Que crise? “A” crise. Não pus os pés para fora de casa e hoje é segunda. Segunda! O máximo que cheguei foi até o portão para receber minha marmitex de frango empanado, porque afinal, esse negócio de agravar o sofrimento com inanição auto-impingida não é para mim. Passar todo este tempo comigo mesma, em casa, despertaram um não sei o que estou fazendo da minha vida, aonde eu vou chegar com isso, porque escolhi isso, o que é que vou fazer depois que tudo acabar e outros mais que agora não sei o que fazer. Em pouquíssimos meses tudo terá se encerrado e tenho que começar a providenciar algo, qualquer coisa, logo, já. A Raquel bem que tinha razão, e eu já sabia, mas é muito pior quando você esta passando pela experiência de verdade. A mente flutua, começa a se preocupar com coisas absurdamente inúteis para desviar do problema real. E ele continua lá, enorme, no meio da sala, da cozinha, do quarto, bloqueando a passagem e crescendo, incessantemente, às vezes te encarando, às vezes te evitando. E tudo o que você quer é que ele seja resolvido, que ele suma, rápido, neste momento, para que você não seja uma inútil, não sinta nada e possa seguir adiante, para algum lugar. Não que não houvesse trabalho para ser feito, isso sempre há, e muito, mas eu simplesmente não fiz e nem quero fazer. E o que eu acreditava que estaria pronto em algumas horas se arrasta já há dois dias, sem perspectivas de conclusão. Que droga, isso é fácil, já enfrentei trabalhos piores! Que droga, eu não sou uma máquina! Ontem, pleno domingo, deixei de ir ao cinema ver um filme que eu queria tanto, de ir tomar uma cervejinha, de existir, para ficar em casa ver se terminava esse negócio. Tudo em vão. Como das outras vezes, uma crisezinha básica se instalou, mas dessa vez não é uma qualquer, dessa vez não há mais tempo.

Pela primeira vez desde que o comprei e coloquei na cabeceira da minha cama, o tique-taque do meu relógio-despertador não me deixou dormir. Nem mudando de lugar, eu podia ouvi-lo até da lavanderia. Jogar fora é que não dava, infelizmente.

Claro, para ajudar, faço aniversário amanhã. Em algumas horas, na realidade.

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