Acordo. Estou suada e com a garganta seca. Gostaria de poder dizer que foi por causa de algum pesadelo, algum sonho auspicioso ou alguma conclusão realizada de modo tão intenso que tive que acordar para gritar “eureka!”, apenas para esquecê-la em segundos. Não, muito menos poético e mais pragmático, acordo com uma ligeira crise de rinite. Levanto-me e vou até o banheiro para assuar o nariz, depois a cozinha atrás de um copo de água, troco as cobertas por outras mais leves e deito-me novamente. Só então ouço uma cantoria, Raul Seixas. Às 03h45min da manhã. Certamente estariam cantando antes, não? Pego alguma coisa para ler, um texto de crítica literária qualquer, bem chato, para me dar sono. Cinco músicas depois, decido levantar com os gritos de um trompete acompanhando o que antes era somente um violão e um bongô. Abro a janela, mas não consigo ver de que quintal vizinho vem o som, agora característico de repertório latino. Minha ansiedade cresce a cada nota enquanto mais duas músicas são executadas.

Pausa…

Minutos se passam em silencio até que irrompe um bolero extremamente conhecido, fazendo com que o volume aumente mais. Ao final, alguns cachorros uivam elogiosamente, após uma salva de palmas entusiástica. Aguço meus ouvidos e começo a distinguir, por entre a noite iluminada pelos postes de luz, risos, conversas, gargalhadas explodem aqui e ali, mais uma salva de palmas, barulhos de copos e garrafas intensificam-se e finalmente diminuem, até que tudo cessa. Espero ainda, mas nada mais acontece. Fecho minha janela e retorno as cobertas. Que pena estar presa aqui dentro.

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