Farejo alguma coisa suave no ar e desperto de um cochilo preguiçoso no sofá da sala. Ou melhor, desperto de um cochilo revigorante e imediatamente um aroma suavemente adocicado provoca minhas narinas, talvez. Levanto-me do sofá, estico-me inteirinha, fazendo questão de emitir todos os ruídos e distender todos os músculos, afinal, quando os anos vividos começam a pesar sobre as articulações, a remota possibilidade de ainda poder fazer aquilo que a juventude realiza sem o menor esforço merece destaque e até mesmo uma salva de aplausos, dependendo da idade e do esforço requerido. Meg está absorvida demais para notar minha pequena exibição de flexibilidade, incomparável ao que quer que esteja passando naquele aparelho odioso que ocupa o centro da sala e sua atenção diária das 19 às 22 horas. Quando ela entra neste estado de transe eu simplesmente a ignoro, pois todas as minhas tentativas de chamar sua atenção são também sumariamente ignoradas. Saio em busca da origem do cheiro e acabo no jardim, encarando a roseira do vizinho que cresce sempre sobre o muro, invadindo o quintal do prédio. A noite está espessamente nublada, criando um efeito estranho que faz com que a abobada reflita as luzes das lâmpadas acesas, mas o horizonte próximo aos telhados dos prédios e casas seja completamente escuro. Cai uma garoa fina e inconstante. Um vento gelado me arrepia e decido por entrar em casa novamente, repelida pela frieza da noite frente ao sofá aconchegante e tentador que Meg escolhera apenas há alguns meses. Obviamente, minha opinião não fora consultada e eu imediatamente odiei aquele troço vermelho terracota que substituíra meu querido aconchego azul marinho já amaciado pelo tempo. Admito ter passado uns cinco minutos inteirinhos encarando, mas não resisti à curiosidade de testar a coisa “só pra confirmar que eu odiava mesmo” e quando dei por mim já tinha me estirado e dormido duas horas nele. Acordei da minha soneca lânguida da tarde e, quando me vi cercada daquele vermelho horroroso, dei um salto meio desajeitado, vergonhoso, na realidade, desesperada para sair daquela coisa e só depois fui me lembrar que estava em casa mesmo, o sofá é que era outro e saí da sala como se nada tivesse acontecido. Tive que dar o braço a torcer, pois, o que ele não tinha de bonito, tinha de confortável.

Pode parecer exagerado, mas reagi exatamente como quando Meg tomou um porre uns meses atrás e trouxe um estranho para casa. Na verdade, a cara que ela fez quando acordou e percebeu que o corpo deitado era de um estranho e não o do Saulo foi mesmo de dar pena. Se bem que, só muito bêbada para conseguir confundir aquele homem com o Saulo; ele tem um jeito de andar e um cheiro que eu jamais esqueceria. Confesso que eu mesma tenho uma certa relação de amor e ódio com o Saulo, e quando ele parou de aparecer em casa toda a vizinhança sabia que eles tinham brigado e que Meg estava desconsolada. Ela odiava que o casal do andar de cima, especialmente a senhora, viesse tentar consolá-la com abraços e chocolates, mas o que ela esperava? Por duas semanas inteirinhas ela chorava e acabava dormindo em cima das fotos da viagem para a praia que ela tinha detestado na época, relembrando o quanto eram felizes e blábláblá. O problema, na verdade, era quando a crise batia mesmo e ela se desmanchava, uivando mais alto que os cachorros da rua que ainda o amava, que era o homem da sua vida e mais blábláblá. Nisso, o meu cochilo após o jantar ia para o espaço, junto com a minha paciência. Ligava para as amigas, pedia conselhos, achava que poderia tê-lo de volta e se desiludia, quebrava a cara mesmo, sem se importar em passar por boba, carente, grudenta e finalmente chata e neurótica. O porre foi uma tentativa de superar a fossa – e a descoberta de que Saulo estava de caso com uma loira lindíssima, dentista – que acabou por piorar a situação um pouco mais, antes de melhorar de verdade. Sei disso porque o evento levou a outra rodada de telefonemas às amigas: pelo que eu entendi, se é que dá para entender, era que ela queria que, seja lá quem quer que fosse, fosse o Saulo, exatamente quando ela não podia querer, e esse era o motivo da nova crise. O moço-que-deveria-ser-o-Saulo-mas-não-era até tentou ligar para ela, perguntando polidamente por Margareth, ênfase no “th”, ao que ela respondeu que não havia ninguém naquele número que atendesse pelo nome. O que era a mais pura verdade, pois poucos sabem que Meg é de Megara e não de Margareth ou Megan, confusão, a meu ver, perfeitamente justificável. Não aos olhos de Meg claro, “ele nem sabe meu nome, como é que eu posso me relacionar com uma cara desses?”

Havia suficiente entendimento entre nós duas após dez anos de convivência, conhecíamos nossos hábitos, nossas preferências, os pequenos rituais inconscientes e diários. No entanto, dez anos não foram suficientes para que Meg perdesse o estranho hábito de sempre me perguntar “como estou?” quando saía para algum evento evidentemente importante, denunciado pelas duas horas a mais que ela demorava em escolher uma roupa além das duas habituais e pelo perfume odiosamente adocicado. Eu levantava a cabeça do que quer que estivesse fazendo, olhava para ela e voltava a minha tarefa. Às vezes ela estava tão insegura e nervosa que até me acordava de algum cochilo no sofá horroroso para me perguntar uma coisa que eu não poderia jamais responder. Como é que se diz para a dona que ela está mais gorda do que ela pensa que está? Dou um miado preguiçoso ou nem isso e retorno a minha soneca. Ultimamente, apenas olho e saio do ambiente empestado de perfume ou viro para o outro lado, pois um simples miado é sempre lido como um sinal de aprovação, e minha honestidade me impede de confirmar algo que ninguém em sã consciência concordaria. Aonde ela pensa que vai nesse frio? Amanhã ela vai acordar com outro estranho e aquela cara, misto de ressaca e arrependimento profundo, certeza.

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