Hoje, pela primeira vez, derramei algumas lagrimas por você. Apenas uma ou duas que, após muitos esforços, conseguiram atingir a superfície. Mas não me engano: minha frágil certeza foi abalada e não há como voltar a ser como era antes. Na realidade, essa é a ultima coisa que eu quero. Ao mesmo tempo em que busco compreender, confiar e ser paciente, a falta de cuidado, de reciprocidade, de coerência mesmo, arrasa minhas estruturas, como o Katrina ou algum desastre natural inevitável e altamente destrutivo. Vivo como se tivesse entrado em um estado de transe, contemplando poemas, músicas e paisagens e lendo em cada um deles uma pequena faceta de um amor que ate então eu jamais havia conhecido. Não que tenha esperado assim, como uma pedra, mas cada beijo era vazio, como se fosse oco, invólucro de desejo, sem recheio de licor ou brinquedinho em miniatura. Presa em um labirinto de imagens, memórias e sentimentos se embaralham, se fundem e me perdem, me debato por ar, por liberdade, em meio a esse turbilhão que me arrasta, antes que eu seja mumificada viva pelas lembranças.

Começo a acreditar que essa paixão existiu apenas nessas linhas que escrevi.

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