uhuhumm…. uhuhuhuhummmm…..   Lena cantarola baixinho enquanto varre a sala, o último cômodo que falta, antes de passar pano na casa toda a poder dar essa parte da tarefa como pronta. Lena e Henrique dividem as tarefas da limpeza desde que se mudaram juntos, há dois anos. O apê não é grande, mas sempre dá trabalho. O telefone toca:

– Marinaaa! Putz! quanto tempo, muié! eai, tudo bem?

– …

– Ahan, por aqui tudo tranqüilo também. Cê sabe, aquela rotina do cão, mas…

– …

– Mas é claro! Que horas você pode? Eu tenho que passar no escritório as quatro terminar algumas coisas, umas duas planilhas, com o seu Rubens, mas depois eu tô livre.

– …

– É, até no sábado… fazer o quê?

– As seis e meia? Naquele do lado da loja de tintas, né? Tá combinado.

-Marinaaa!

-Lenaaa!

– Eai, tudo bem? e o emprego? e a Cátia? o Serginho?

– Menina, tudo bem sim… o emprego aquela merda de sempre, a Cátia continua sendo uma vaca, mas eu não tenho escolha mesmo… pelo menos ela não me manda mais ficar no estoque, que aquele lugar apertado e horroroso é o inferno!

Risos.

– Então, Lena, o Serginho me contou uma coisa e foi por isso que eu liguei. Vou falar logo porque é sério e não dá pra ficar enrolando… então, o Serginho encontrou com o Henrique no ônibus e eles estavam conversando, normal, quando o celular do Henrique toca e ele atende, fica branco que nem papel, marca um encontro com uma pessoa ontem lá no Malagueta a meia noite e desliga sem falar nada. Sexta-feira é o dia em que o Serginho passa lá no Malagueta pra ver a Cris, aquela loira biscatinha que sabe Deus o que meu irmão viu nela, mas, tudo bem… bem, ele chega lá umas duas e vê o Henrique conversando com uma loira de canto e eles saem juntos do clube. Bem, é isso.

Lena começa a tremer, lágrimas insistem em querer cair. Com muito esforço, ela consegue articular:

– Uma loira… bunduda… com uma tatuagem de borboleta nas costas?

– Isso mesmo.

– Obrigada, Marina….

– Desculpa fazer isso, mas eu não podia deixar de te contar… você é minha amiga e….

– Eu sei. Eu sei. Acho que eu preciso ficar sozinha. Quero sair daqui.

– Tudo bem, eu entendo. Preciso ir também. Deixa que eu pago o café.

– Obrigada Marina.

Lena dá um beijo de leve no rosto de Marina e sai meio cambaleando pela rua. Controla-se, começa a andar reto, pisar forte, esbarrar nas pessoas, seu rosto se contorce em uma careta de ódio.

Chega em casa uma hora depois e começa a se arrumar freneticamente, com violência. Toma banho, se enrola na toalha e se olha no espelho. Ao notar a escova de dentes de Henrique, agarra-a e corre para o quarto, pega uma mala e joga nela tudo dele que vê pela frente. Depois de uns 15 minutos correndo pela casa sem parar, ela se senta na beira da cama e chora baixinho. “E agora?”, ela geme. “Foda-se… foda-se. É, isso, FODA-SE”.

Lena termina de se vestir com calma, escolheu seu vestido mais bonito, se maqueia como não fazia há tempos e sai de casa. Pega o ônibus e fuzila com o olhar todos os engraçadinhos que tentam passar uma cantada nela, todas toscas, do tipo “eai, gatinha, onde vai assim tão gostosa?”, “nossa, que maravilhosa, que princesa”. Chega no Malagueta, o segurança deixa ela passar, ele já conhece a Lena, sabe que, infelizmente, ela namora o Henrique. Ela passa pela primeira pista sem ver nada na frente, o Henrique fica no bar dos fundos, o da área vip. Henrique vê Lena antes que ela o veja, deduz alguma coisa e sai correndo de trás do balcão, pega ela pelo braço e a leva para um canto perto da saída de emergência.

-Me solta, se puto! Seu babaca, imbecil!

– Calma, Lena, deixa eu falar com você. O que aconteceu?

– Voce ainda tem coragem de me perguntar, seu idiota, viado. Eu sei que você esta com aquela vaca daquela Thais, ta, eu sei… como você pode?

– Ai, caralho… – Henrique esfrega o rosto e o cabelo com as mãos.

– É, caralho mesmo, que puta que o pariu, né Henrique? você tinha que sair com ela de novo!

– Lena, não é nada disso que você está pensando…

– Ah, não é? ta me chamando de idiota agora? você pensa que eu sou o que? burra?

– Ela tá grávida…

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