Não há como oferecer acabamentos, sentidos prontos, definitivos, então porque o trabalho acadêmico deve se debruçar sobre a literatura? Não para dissecá-la apenas, matando-a para isto, mas para compreender suas engrenagens, para ver com outros olhos a beleza que ela transmite e assim tentar fazer com que as
pontes entre o livro o e leitor e seu contexto, criadas a partir da leitura e da inevitável interpretação, tornem-se visíveis. Como o levantar do nevoeiro que encobre as paisagens e a vida que se sabemos se encontrar por detrás dele. Não é revelar o truque do mágico e fazer com que ele perca o encanto, mas descortinar a realidade aos olhos e enxergar o encanto de forma mais clara,
mais vívida e por isso mais completamente apreciada. A ferramenta da psicanálise pode se transformar em tiro que saiu pela culatra quando palavras no papel não se transformam em deleite, fruição, mas expressões de psicopatologias, como num dicionário de medicina. O inconsciente não manifesta sempre mesma coisa, mas manifesta relativamente o mesmo sentido das mais variadas formas, pois seu leque de associações e deslocamentos de sentido é tão amplo quanto a mente do sujeito é capaz de alcançar. A literatura, como o sonho, expressa a verdade subjacente ao sujeito, independente dos elementos.
Não que os elementos não sejam relevantes, mas o sentido é transmitido de qualquer forma, quaisquer que sejam os recursos utilizados. Eles modelam o sentido, sim, claro, mas o sentido também os molda. Os sentidos a eles atribuídos, claro, pois, como iniciamos, não há verdade universal ou final pronta a ser transmitida, mas há o humano, sempre mutante e sempre constante, transmitido como genes de geração para geração, recombinando-se, mutando, reconstruindo-se. É nesse âmbito de incertezas que a teoria de Derrida vem encaixar-se, pois ela propõe o dizer e o não dito, os dois ocorrendo simultaneamente, pois dizer algo é deixar de enunciar todas as outras possibilidades e essa escolha implica o desejo de expressão. A ambigüidade existe em tudo, no homem e no mundo que o rodeia e conseqüentemente, em seus pensamentos, atos e palavras.

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